terça-feira, 12 de agosto de 2008

Quinze minutos de fama

Se prestarmos atenção em nosso dia-a-dia são milhares de conversas que passam por nossos ouvidos e se vão...
Tinha em mente um projeto para registrar durante um certo período tudo o que ouço pela cidade, de forma ainda não definida. São muitas histórias que podemos entrelaçar, recriar, dar um desfecho. É provável que esta inicie o processo.
Tudo começa na espera de um ônibus na volta para casa. Um casal sem rosto conversa atrás de mim. Parecia uma leve discussão. Ela ‘falando’ juras de amor; ele, mais reticente.
Aos poucos o diálogo toma forma e se torna mais sério. Em tom de desdém ele diz que precisa de mais espaço, que sabe que ela o ama, mas que não precisa agarrá-lo para provar isso.
Começo a pensar: como as pessoas são diferentes! Eu, por exemplo, não via a hora de chegar em casa para ter um abraço apertado.
O fato é que o cara da conversa queria mais distância.
Ela resmunga, mas nada diz.
O ônibus chega. Minutos antes de entrarmos, quando talvez a história tivesse um fim e passasse a ter minha imaginação como criadora, ele diz: ‘eu sei do seu amor, mas não é fácil saber que sua namorada já saiu com um cara e teve cenas filmadas na cama’.
Nesse momento entendo toda a repugnância do rapaz. Com certeza ver esse filme não foi o mesmo que acompanhar a namorada para assistir a um romance meloso.
Ela, então, pede que ele pare. Eu, não mais no desejo de dar um fim para essa história, mas, sim, para saber o final dela, desacelero e ainda o ouço completar: ‘imagina você se tivesse visto um filme em que eu comia minha ex?’. Ele não sussurra. Fala para quem quiser ouvir. Talvez eu não tenha sido a única a escutá-lo.
A fila passa a andar mais apressadamente. É provável que as pessoas à minha frente não quisessem saber o desfecho da história.
Sento em um banco solitário do ônibus. O casal ganha forma. Ela, chorosa, envergonhada. Ele, no pior estilo ‘comedor’, de boné esconde seu rosto. Escolhem um local e talvez tenham continuado o ‘bate-papo’.
Não os ouço mais.

2 comentários:

emed disse...

Mi, impressionante suas impressôes. Continue observando o cotidiano e criando textos maravilhosos.

26/10/2008

Anônimo disse...

Mi, que bom ver você escrever...sua avó certamente estará orgulhosa de você! E eu também...