Não tinha inimigos. Mas a vida fez com que o mal aparecesse. O Mal de Alzheimer. Com o tempo, precisava cada vez mais não de sete, mas de quantas pessoas fossem necessárias para ajudá-la no processo lento da doença. O carinho e o auxílio foram essenciais nesse caminhar.
O ‘mestre’ em sua vida era uma mulher. Segunda filha dos quatro que teve, era ela, Carmen, que sabia os horários de remédios, de médicos, que foi capaz de transferir sua vida para a daquela figura que a dera a vida. Uma dedicação total. O zangado, também uma mulher e também filha. A terceira. Aparentemente de mau humor, tinha um jeito especial de tratar a mãe. Quem via não entendia muito bem, mas elas podiam compreender uma à outra perfeitamente. O papel do mais novo foi tão essencial como o das outras. Depois de dias difíceis no trabalho, chegava com carinho, alguns remédios, muita disposição e amor. O primogênito tentava administrar tudo ao longe, a muitos quilômetros de distância.
Nessa história de vida a maçã veio disfarçada. Necessitada de remédios e acompanhamento constante de profissionais da saúde foi vítima de um erro: uma superdosagem.
Os reflexos foram muitos: meses deitada na cama de um hospital, o retorno para casa nas mesmas condições. A necessidade de ajuda aumentara. O carinho se multiplicara.
Os netos que ali chegavam eram uma mistura de todos os outros: Feliz, Soneca, Dengoso, Atchim e Dunga. Com características particulares que permitiram breves momentos de lucidez. Será que não foram efetivos? Ninguém sabe. A doença era silenciosa.
Ela deitada, olhava, olhava...fechava os olhos. Parecia um sorriso. Será? Crê-se que sim.
O carinho foi suficiente, mas o tempo...a missão desse ser tão especial foi-se chegando ao fim (Ou um começo?).
Novamente dias num hospital. UTI e um homem de branco. O médico. A realidade veio à tona. “Às vezes, temos que deixar que o Cara lá de cima decida”.
Um beijo de uma neta e da mestre.
No dia seguinte, o despertar.
Para quem ficou, uma saudade.
Para ela, o reencontro com seu príncipe encantado, que já a conhecia de longa data.
Homenagem à minha avó materna, Estrella Ferro Fernandez
Um comentário:
Mi, tenho certeza que a nossa Estrella Branca, onde esteja, não te esquece e te quere cada vez mais, como aliás sempre te quis desde o teu nascimento e voce sempre e fez e continua fazendo, por merece-lo.
Sobrinha, eu não sou um homem forte e, com lágrimas de emoção e saudade, te agradeço por este trabalho.
Também te amo.
José Benito
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