sábado, 8 de novembro de 2008

O colega taxista

Uma conversa dentro de um táxi tem o costume de ser despretensiosa. “Ah, como esfriou hoje”,“Parece que vai chover” ou simplesmente “Para onde?”. A que segue, porém, tem um quê de desrespeito e curiosidade.
De férias, fui buscar a tranqüilidade fora do agito de São Paulo. Em Monte Alegre do Sul, a 148 quilômetros da capital. De São Paulo até lá, o trajeto foi feito de ônibus – SP a Amparo e Amparo a Monte Alegre do Sul. Além de confortável, não saiu caro, cerca de R$ 30,00. A idéia era chegar à rodoviária da cidade e pegar um táxi até a pousada, uma distância de menos de 3 km.
Ao descer do ônibus, notei que a rodoviária era menor do que esperava. Táxi? Nenhum sinal. Na cena, um local pequeno e um boteco. Ou seria um boteco com parada para ônibus? Um homem e uma mulher de quase 60 anos de idade ‘carteavam’.
Uma placa que indicava o telefone de um taxista parecia ser a solução. Mas o número estava incorreto. Foi então que a senhora, numa aparente boa vontade, nos indicou o número de um colega taxista que em dez minutos chegaria para nos levar.
Em menos tempo ele estava lá, num Fiat Stilo. Sentei-me no banco de trás e meu marido, no do passageiro. Não sei dizer como o assunto começou, mas o tema era o tipo de golpe que bandidos estavam usando para extorquir dinheiro das pessoas, o famoso golpe telefônico. Em pouco tempo de conversa, soubemos que ele é dono de imobiliária, que seu filho é proprietário de uma loja de materiais de construção e que ele já havia recebido ligações daquele tipo, dizendo que seu filho havia sido seqüestrado.
Infelizmente, aquela conversa me fazia lembrar de coisas de que estava querendo fugir – violência, assalto, golpe, tristeza. Estava de férias, queria paz.
Ao chegarmos à pousada, senti que a tranquilidade estava próxima.
Pegamos as malas. Meu marido, então, disse: ‘Quanto?’. E a resposta: ’20 reais’. Pagamos. O ‘colega taxista’ vai embora.
Olho para meu marido e ele diz: ‘Não tinha taxímetro’.
Gastamos mais em 3 km do que para sair de Sampa e chegar a Monte Alegre do Sul.
Será que a história que ouvimos tinha alguma relação com o que estávamos vivendo?

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Estrella Branca

Era uma vez uma Estrella. Uma Estrella da terra, com os pés no chão. Branca ela era. Mas não de neve, era de carne e osso. Com nome e sobrenome: Ferro Fernandez. A sonoridade e o brilho de seu nome se estendiam por toda a família. A casa, sempre com amigos, filhos e netos.
Não tinha inimigos. Mas a vida fez com que o mal aparecesse. O Mal de Alzheimer. Com o tempo, precisava cada vez mais não de sete, mas de quantas pessoas fossem necessárias para ajudá-la no processo lento da doença. O carinho e o auxílio foram essenciais nesse caminhar.
O ‘mestre’ em sua vida era uma mulher. Segunda filha dos quatro que teve, era ela, Carmen, que sabia os horários de remédios, de médicos, que foi capaz de transferir sua vida para a daquela figura que a dera a vida. Uma dedicação total. O zangado, também uma mulher e também filha. A terceira. Aparentemente de mau humor, tinha um jeito especial de tratar a mãe. Quem via não entendia muito bem, mas elas podiam compreender uma à outra perfeitamente. O papel do mais novo foi tão essencial como o das outras. Depois de dias difíceis no trabalho, chegava com carinho, alguns remédios, muita disposição e amor. O primogênito tentava administrar tudo ao longe, a muitos quilômetros de distância.
Nessa história de vida a maçã veio disfarçada. Necessitada de remédios e acompanhamento constante de profissionais da saúde foi vítima de um erro: uma superdosagem.
Os reflexos foram muitos: meses deitada na cama de um hospital, o retorno para casa nas mesmas condições. A necessidade de ajuda aumentara. O carinho se multiplicara.
Os netos que ali chegavam eram uma mistura de todos os outros: Feliz, Soneca, Dengoso, Atchim e Dunga. Com características particulares que permitiram breves momentos de lucidez. Será que não foram efetivos? Ninguém sabe. A doença era silenciosa.
Ela deitada, olhava, olhava...fechava os olhos. Parecia um sorriso. Será? Crê-se que sim.
O carinho foi suficiente, mas o tempo...a missão desse ser tão especial foi-se chegando ao fim (Ou um começo?).
Novamente dias num hospital. UTI e um homem de branco. O médico. A realidade veio à tona. “Às vezes, temos que deixar que o Cara lá de cima decida”.
Um beijo de uma neta e da mestre.
No dia seguinte, o despertar.
Para quem ficou, uma saudade.
Para ela, o reencontro com seu príncipe encantado, que já a conhecia de longa data.

Homenagem à minha avó materna, Estrella Ferro Fernandez

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Um homem forte

Pai, vô, esposo, irmão e amigo,
85 anos não se apagam
Serão, sim, lembrados da forma mais bela
Mais sincera e simples!
Como sempre nos ensinou!

Tudo o que construiu foi maravilhosamente entrelaçado, unido!
A sua força esteve presente:
Na mão que apertava a nossa e que também segurava a bengala, na vontade de olhar e cuidar da vó (a Estrella de sua vida), na insistência ou implicância com seus filhos (as) para fazer as coisas do seu ‘jeitinho’, no olhar e nas palavras que trocava com todos os netos (as), amigos (as)...no cuidar da horta, no cuidar do Brasa, ao manter a quitanda sempre ‘viva’, em todas as suas construções!

E esse construir foi muito além dos prédios e casas
Construiu amor, confiança, alegrias, esperança, paz, carinho
Qualidades que jamais serão esquecidas.
Serão lembradas, sempre!
Em nosso dia-a-dia, há momentos especiais, nos quais você faz parte e continuará presente, sempre, em nossa memória!
Que encontre um campo cheio de flores e um caminho repleto de luz!
E ouça a nossa mensagem de amor!

Homenagem ao meu avô paterno, Eduardo Rodriguez Rodriguez

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Quinze minutos de fama

Se prestarmos atenção em nosso dia-a-dia são milhares de conversas que passam por nossos ouvidos e se vão...
Tinha em mente um projeto para registrar durante um certo período tudo o que ouço pela cidade, de forma ainda não definida. São muitas histórias que podemos entrelaçar, recriar, dar um desfecho. É provável que esta inicie o processo.
Tudo começa na espera de um ônibus na volta para casa. Um casal sem rosto conversa atrás de mim. Parecia uma leve discussão. Ela ‘falando’ juras de amor; ele, mais reticente.
Aos poucos o diálogo toma forma e se torna mais sério. Em tom de desdém ele diz que precisa de mais espaço, que sabe que ela o ama, mas que não precisa agarrá-lo para provar isso.
Começo a pensar: como as pessoas são diferentes! Eu, por exemplo, não via a hora de chegar em casa para ter um abraço apertado.
O fato é que o cara da conversa queria mais distância.
Ela resmunga, mas nada diz.
O ônibus chega. Minutos antes de entrarmos, quando talvez a história tivesse um fim e passasse a ter minha imaginação como criadora, ele diz: ‘eu sei do seu amor, mas não é fácil saber que sua namorada já saiu com um cara e teve cenas filmadas na cama’.
Nesse momento entendo toda a repugnância do rapaz. Com certeza ver esse filme não foi o mesmo que acompanhar a namorada para assistir a um romance meloso.
Ela, então, pede que ele pare. Eu, não mais no desejo de dar um fim para essa história, mas, sim, para saber o final dela, desacelero e ainda o ouço completar: ‘imagina você se tivesse visto um filme em que eu comia minha ex?’. Ele não sussurra. Fala para quem quiser ouvir. Talvez eu não tenha sido a única a escutá-lo.
A fila passa a andar mais apressadamente. É provável que as pessoas à minha frente não quisessem saber o desfecho da história.
Sento em um banco solitário do ônibus. O casal ganha forma. Ela, chorosa, envergonhada. Ele, no pior estilo ‘comedor’, de boné esconde seu rosto. Escolhem um local e talvez tenham continuado o ‘bate-papo’.
Não os ouço mais.