Uma conversa dentro de um táxi tem o costume de ser despretensiosa. “Ah, como esfriou hoje”,“Parece que vai chover” ou simplesmente “Para onde?”. A que segue, porém, tem um quê de desrespeito e curiosidade.
De férias, fui buscar a tranqüilidade fora do agito de São Paulo. Em Monte Alegre do Sul, a 148 quilômetros da capital. De São Paulo até lá, o trajeto foi feito de ônibus – SP a Amparo e Amparo a Monte Alegre do Sul. Além de confortável, não saiu caro, cerca de R$ 30,00. A idéia era chegar à rodoviária da cidade e pegar um táxi até a pousada, uma distância de menos de 3 km.
Ao descer do ônibus, notei que a rodoviária era menor do que esperava. Táxi? Nenhum sinal. Na cena, um local pequeno e um boteco. Ou seria um boteco com parada para ônibus? Um homem e uma mulher de quase 60 anos de idade ‘carteavam’.
Uma placa que indicava o telefone de um taxista parecia ser a solução. Mas o número estava incorreto. Foi então que a senhora, numa aparente boa vontade, nos indicou o número de um colega taxista que em dez minutos chegaria para nos levar.
Em menos tempo ele estava lá, num Fiat Stilo. Sentei-me no banco de trás e meu marido, no do passageiro. Não sei dizer como o assunto começou, mas o tema era o tipo de golpe que bandidos estavam usando para extorquir dinheiro das pessoas, o famoso golpe telefônico. Em pouco tempo de conversa, soubemos que ele é dono de imobiliária, que seu filho é proprietário de uma loja de materiais de construção e que ele já havia recebido ligações daquele tipo, dizendo que seu filho havia sido seqüestrado.
Infelizmente, aquela conversa me fazia lembrar de coisas de que estava querendo fugir – violência, assalto, golpe, tristeza. Estava de férias, queria paz.
Ao chegarmos à pousada, senti que a tranquilidade estava próxima.
Pegamos as malas. Meu marido, então, disse: ‘Quanto?’. E a resposta: ’20 reais’. Pagamos. O ‘colega taxista’ vai embora.
Olho para meu marido e ele diz: ‘Não tinha taxímetro’.
Gastamos mais em 3 km do que para sair de Sampa e chegar a Monte Alegre do Sul.
Será que a história que ouvimos tinha alguma relação com o que estávamos vivendo?
Existem imagens que os ouvidos não captam. Há sons que os olhos não conseguem ‘ver’. Pensando nisso, decidi criar este blog, escrever por puro prazer, para registrar minhas sensações e impressões; o que sinto com o que meus olhos vêem e com o que meus ouvidos captam. Espero que gostem!
sábado, 8 de novembro de 2008
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
Estrella Branca
Era uma vez uma Estrella. Uma Estrella da terra, com os pés no chão. Branca ela era. Mas não de neve, era de carne e osso. Com nome e sobrenome: Ferro Fernandez. A sonoridade e o brilho de seu nome se estendiam por toda a família. A casa, sempre com amigos, filhos e netos.
Não tinha inimigos. Mas a vida fez com que o mal aparecesse. O Mal de Alzheimer. Com o tempo, precisava cada vez mais não de sete, mas de quantas pessoas fossem necessárias para ajudá-la no processo lento da doença. O carinho e o auxílio foram essenciais nesse caminhar.
O ‘mestre’ em sua vida era uma mulher. Segunda filha dos quatro que teve, era ela, Carmen, que sabia os horários de remédios, de médicos, que foi capaz de transferir sua vida para a daquela figura que a dera a vida. Uma dedicação total. O zangado, também uma mulher e também filha. A terceira. Aparentemente de mau humor, tinha um jeito especial de tratar a mãe. Quem via não entendia muito bem, mas elas podiam compreender uma à outra perfeitamente. O papel do mais novo foi tão essencial como o das outras. Depois de dias difíceis no trabalho, chegava com carinho, alguns remédios, muita disposição e amor. O primogênito tentava administrar tudo ao longe, a muitos quilômetros de distância.
Nessa história de vida a maçã veio disfarçada. Necessitada de remédios e acompanhamento constante de profissionais da saúde foi vítima de um erro: uma superdosagem.
Os reflexos foram muitos: meses deitada na cama de um hospital, o retorno para casa nas mesmas condições. A necessidade de ajuda aumentara. O carinho se multiplicara.
Os netos que ali chegavam eram uma mistura de todos os outros: Feliz, Soneca, Dengoso, Atchim e Dunga. Com características particulares que permitiram breves momentos de lucidez. Será que não foram efetivos? Ninguém sabe. A doença era silenciosa.
Ela deitada, olhava, olhava...fechava os olhos. Parecia um sorriso. Será? Crê-se que sim.
O carinho foi suficiente, mas o tempo...a missão desse ser tão especial foi-se chegando ao fim (Ou um começo?).
Novamente dias num hospital. UTI e um homem de branco. O médico. A realidade veio à tona. “Às vezes, temos que deixar que o Cara lá de cima decida”.
Um beijo de uma neta e da mestre.
No dia seguinte, o despertar.
Para quem ficou, uma saudade.
Para ela, o reencontro com seu príncipe encantado, que já a conhecia de longa data.
Não tinha inimigos. Mas a vida fez com que o mal aparecesse. O Mal de Alzheimer. Com o tempo, precisava cada vez mais não de sete, mas de quantas pessoas fossem necessárias para ajudá-la no processo lento da doença. O carinho e o auxílio foram essenciais nesse caminhar.
O ‘mestre’ em sua vida era uma mulher. Segunda filha dos quatro que teve, era ela, Carmen, que sabia os horários de remédios, de médicos, que foi capaz de transferir sua vida para a daquela figura que a dera a vida. Uma dedicação total. O zangado, também uma mulher e também filha. A terceira. Aparentemente de mau humor, tinha um jeito especial de tratar a mãe. Quem via não entendia muito bem, mas elas podiam compreender uma à outra perfeitamente. O papel do mais novo foi tão essencial como o das outras. Depois de dias difíceis no trabalho, chegava com carinho, alguns remédios, muita disposição e amor. O primogênito tentava administrar tudo ao longe, a muitos quilômetros de distância.
Nessa história de vida a maçã veio disfarçada. Necessitada de remédios e acompanhamento constante de profissionais da saúde foi vítima de um erro: uma superdosagem.
Os reflexos foram muitos: meses deitada na cama de um hospital, o retorno para casa nas mesmas condições. A necessidade de ajuda aumentara. O carinho se multiplicara.
Os netos que ali chegavam eram uma mistura de todos os outros: Feliz, Soneca, Dengoso, Atchim e Dunga. Com características particulares que permitiram breves momentos de lucidez. Será que não foram efetivos? Ninguém sabe. A doença era silenciosa.
Ela deitada, olhava, olhava...fechava os olhos. Parecia um sorriso. Será? Crê-se que sim.
O carinho foi suficiente, mas o tempo...a missão desse ser tão especial foi-se chegando ao fim (Ou um começo?).
Novamente dias num hospital. UTI e um homem de branco. O médico. A realidade veio à tona. “Às vezes, temos que deixar que o Cara lá de cima decida”.
Um beijo de uma neta e da mestre.
No dia seguinte, o despertar.
Para quem ficou, uma saudade.
Para ela, o reencontro com seu príncipe encantado, que já a conhecia de longa data.
Homenagem à minha avó materna, Estrella Ferro Fernandez
terça-feira, 26 de agosto de 2008
Um homem forte
Pai, vô, esposo, irmão e amigo,
85 anos não se apagam
Serão, sim, lembrados da forma mais bela
Mais sincera e simples!
Como sempre nos ensinou!
Tudo o que construiu foi maravilhosamente entrelaçado, unido!
A sua força esteve presente:
Na mão que apertava a nossa e que também segurava a bengala, na vontade de olhar e cuidar da vó (a Estrella de sua vida), na insistência ou implicância com seus filhos (as) para fazer as coisas do seu ‘jeitinho’, no olhar e nas palavras que trocava com todos os netos (as), amigos (as)...no cuidar da horta, no cuidar do Brasa, ao manter a quitanda sempre ‘viva’, em todas as suas construções!
E esse construir foi muito além dos prédios e casas
Construiu amor, confiança, alegrias, esperança, paz, carinho
Qualidades que jamais serão esquecidas.
Serão lembradas, sempre!
Em nosso dia-a-dia, há momentos especiais, nos quais você faz parte e continuará presente, sempre, em nossa memória!
Que encontre um campo cheio de flores e um caminho repleto de luz!
E ouça a nossa mensagem de amor!
85 anos não se apagam
Serão, sim, lembrados da forma mais bela
Mais sincera e simples!
Como sempre nos ensinou!
Tudo o que construiu foi maravilhosamente entrelaçado, unido!
A sua força esteve presente:
Na mão que apertava a nossa e que também segurava a bengala, na vontade de olhar e cuidar da vó (a Estrella de sua vida), na insistência ou implicância com seus filhos (as) para fazer as coisas do seu ‘jeitinho’, no olhar e nas palavras que trocava com todos os netos (as), amigos (as)...no cuidar da horta, no cuidar do Brasa, ao manter a quitanda sempre ‘viva’, em todas as suas construções!
E esse construir foi muito além dos prédios e casas
Construiu amor, confiança, alegrias, esperança, paz, carinho
Qualidades que jamais serão esquecidas.
Serão lembradas, sempre!
Em nosso dia-a-dia, há momentos especiais, nos quais você faz parte e continuará presente, sempre, em nossa memória!
Que encontre um campo cheio de flores e um caminho repleto de luz!
E ouça a nossa mensagem de amor!
Homenagem ao meu avô paterno, Eduardo Rodriguez Rodriguez
terça-feira, 12 de agosto de 2008
Quinze minutos de fama
Se prestarmos atenção em nosso dia-a-dia são milhares de conversas que passam por nossos ouvidos e se vão...
Tinha em mente um projeto para registrar durante um certo período tudo o que ouço pela cidade, de forma ainda não definida. São muitas histórias que podemos entrelaçar, recriar, dar um desfecho. É provável que esta inicie o processo.
Tudo começa na espera de um ônibus na volta para casa. Um casal sem rosto conversa atrás de mim. Parecia uma leve discussão. Ela ‘falando’ juras de amor; ele, mais reticente.
Aos poucos o diálogo toma forma e se torna mais sério. Em tom de desdém ele diz que precisa de mais espaço, que sabe que ela o ama, mas que não precisa agarrá-lo para provar isso.
Começo a pensar: como as pessoas são diferentes! Eu, por exemplo, não via a hora de chegar em casa para ter um abraço apertado.
O fato é que o cara da conversa queria mais distância.
Ela resmunga, mas nada diz.
O ônibus chega. Minutos antes de entrarmos, quando talvez a história tivesse um fim e passasse a ter minha imaginação como criadora, ele diz: ‘eu sei do seu amor, mas não é fácil saber que sua namorada já saiu com um cara e teve cenas filmadas na cama’.
Nesse momento entendo toda a repugnância do rapaz. Com certeza ver esse filme não foi o mesmo que acompanhar a namorada para assistir a um romance meloso.
Ela, então, pede que ele pare. Eu, não mais no desejo de dar um fim para essa história, mas, sim, para saber o final dela, desacelero e ainda o ouço completar: ‘imagina você se tivesse visto um filme em que eu comia minha ex?’. Ele não sussurra. Fala para quem quiser ouvir. Talvez eu não tenha sido a única a escutá-lo.
A fila passa a andar mais apressadamente. É provável que as pessoas à minha frente não quisessem saber o desfecho da história.
Sento em um banco solitário do ônibus. O casal ganha forma. Ela, chorosa, envergonhada. Ele, no pior estilo ‘comedor’, de boné esconde seu rosto. Escolhem um local e talvez tenham continuado o ‘bate-papo’.
Não os ouço mais.
Tinha em mente um projeto para registrar durante um certo período tudo o que ouço pela cidade, de forma ainda não definida. São muitas histórias que podemos entrelaçar, recriar, dar um desfecho. É provável que esta inicie o processo.
Tudo começa na espera de um ônibus na volta para casa. Um casal sem rosto conversa atrás de mim. Parecia uma leve discussão. Ela ‘falando’ juras de amor; ele, mais reticente.
Aos poucos o diálogo toma forma e se torna mais sério. Em tom de desdém ele diz que precisa de mais espaço, que sabe que ela o ama, mas que não precisa agarrá-lo para provar isso.
Começo a pensar: como as pessoas são diferentes! Eu, por exemplo, não via a hora de chegar em casa para ter um abraço apertado.
O fato é que o cara da conversa queria mais distância.
Ela resmunga, mas nada diz.
O ônibus chega. Minutos antes de entrarmos, quando talvez a história tivesse um fim e passasse a ter minha imaginação como criadora, ele diz: ‘eu sei do seu amor, mas não é fácil saber que sua namorada já saiu com um cara e teve cenas filmadas na cama’.
Nesse momento entendo toda a repugnância do rapaz. Com certeza ver esse filme não foi o mesmo que acompanhar a namorada para assistir a um romance meloso.
Ela, então, pede que ele pare. Eu, não mais no desejo de dar um fim para essa história, mas, sim, para saber o final dela, desacelero e ainda o ouço completar: ‘imagina você se tivesse visto um filme em que eu comia minha ex?’. Ele não sussurra. Fala para quem quiser ouvir. Talvez eu não tenha sido a única a escutá-lo.
A fila passa a andar mais apressadamente. É provável que as pessoas à minha frente não quisessem saber o desfecho da história.
Sento em um banco solitário do ônibus. O casal ganha forma. Ela, chorosa, envergonhada. Ele, no pior estilo ‘comedor’, de boné esconde seu rosto. Escolhem um local e talvez tenham continuado o ‘bate-papo’.
Não os ouço mais.
Assinar:
Comentários (Atom)